Fazia pouco tempo que moravam ali, mas pensaram que o espaço lhes pertencia. Ocuparam-no com seus papeis e suas ideias, dias passados elaborando planos para converter autoproclamados ilibados, ciclistas inveterados. Certo dia, o susto.
"Tomaram os fundos da casa", disse ao ministro um de seus assessores.
"Não há mal", retrucou o Ministro em seu labirinto. "Fechemos as portas dos fundos -- passe as chaves, não esqueça do trinco", instruiu. A casa é grande, pensava, é possível dividi-la enquanto tratamos da conversão.
Assim ficaram por um tempo, o trabalho um pouco dificultado pelo barulho que aumentava do outro lado.
"Tive que fechar a porta do corredor", informou-lhe o mesmo assessor. "Parece que tomaram a biblioteca".
"Tem certeza?", perguntou o Ministro, ar de estupefação. "Prometeram-me que a biblioteca seria poupada. Dei-lhes em troca nossos aposentos, já de nada nos serviam". Há muito o Ministro e seus assessores dormiam na biblioteca. "Passemos à cozinha", disse, ar de resignação. "Mas mantenha o corredor inacessível para que ao menos possamos ter algum sossego aqui. Aqui podemos continuar nossos planos, ainda que disponhamos não mais de livros, mas de panelas e tigelas, facas e colheres de pau. Ainda dá para trabalhar", afirmava, ar cansado.
O cansaço, o Ministro. Envelhecia, o pobre, assombrado pelas armações que certamente lhe cercavam na casa tomada.
"É inútil chefe. Arrombaram a porta, estão no corredor."
O Ministro, derrotado, aquiesceu. "Abra a porta, saiamos".
Deixaram a casa à meia-noite, a chave jogada no ralo, o Ministro a pensar: quem haverá de querer roubar uma casa tomada, sobretudo a essa hora?
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Versão Levyana de "A Casa Tomada" de Julio Cortázar.